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22/07/12 17:31 - São José dos Campos

Fórum: tragédia expõe drama da violência contra a mulher

Caso da mulher baleada pelo ex-namorado no Fórum evidencia números que assustam: quase 2.000 denúncias este ano, média de 13 casos por dia; estrutura de apoio precisa melhorar, apontam entidades

Xandu Alves

Márcia (nome fictício) espera ansiosa a saída do marido da prisão. Mas não por saudade. É por medo. “Ele vai me matar. Tenho certeza”, diz a mulher, que sofreu por 17 anos com um marido violento em casa.
Aos 43 anos e com dois filhos, ela resolveu dar um basta no sofrimento em maio. Registrou queixa na polícia contra o marido e mudou de casa, mantendo o novo endereço em sigilo.

“Botei para quebrar”, brinca ela, ainda com dificuldade de esboçar um sorriso na face marcada pela angústia. “Nem a polícia, nem a Justiça me dizem quando ele vai sair da cadeia. Se ele me achar, vai me matar.”
Márcia é uma das milhares de mulheres de São José que romperam o medo e o ciclo de violência doméstica e procuraram seus direitos.

A violência contra a mulher ganhou destaque na última semana após a tragédia no Fórum de São José.

Números. Entre janeiro e 5 de junho, 1.940 boletins de ocorrência foram registrados na Delegacia de Defesa da Mulher da cidade, com 696 deles virando inquérito policial. O número representa 70% do total de inquéritos do ano passado (983).
Um deles foi registrado pela atendente Regina (nome fictício), de 34 anos. Cansada de sofrer calada com os arroubos violentos do marido, que quebrava coisas em casa, ela entrou com pedido de divórcio e tirou ele de casa. Sem depender financeiramente dele, Regina procurou seus direitos e está lutando para mantê-lo longe.
“Se eu não desse um basta, a violência iria crescer cada vez mais. Meu filho pequeno já ficou traumatizado com o que viu”, conta ela.

Em São José, a prefeitura tem convênio com o SOS Mulher, para o qual repassa R$ 495 mil por ano. A organização atende com uma equipe de profissionais, além de administrar uma casa de passagem e o aluguel social para os casos de risco de morte. 

OPINIÃO

Rede de apoio precisa ser reforçada
São José dos Campos

A tragédia no Fórum de São José na última quarta-feira é a prova, segundo especialistas que atendem mulheres em situações de violência, dos problemas na rede de atendimento à mulher vítima de violência na cidade.
Antes de ser baleada no braço pelo ex-namorado, dentro do Fórum, Maria Aparecida de Siqueira, 42 anos, havia registrado quatro boletins de ocorrência contra ele, que também já havia sido condenado mas aguardava decisão da Justiça em liberdade.

Os especialistas apontam que os problemas começam pela estrutura deficitária da Delegacia de Defesa da Mulher, que tem dificuldade, em razão da falta de pessoal, de atender com agilidade.

Também a Justiça tem sido questionada pela pouca quantidade de medidas protetivas decretadas nos processos criminais. “Em poucos casos a Justiça decreta a medida protetiva, prevista na lei Maria da Penha para proteger a mulher denunciante”, diz a advogada Carla Márcia Peruzzo, voluntária do Centro Dandara, organização social que atende mulheres vítimas de violência.

Para a diretora executiva da entidade, Sandra Batista, também a falta de uma casa abrigo adequada na cidade compromete o trabalho de acolhimentos dessas mulheres. “Uma casa abrigo tem que contar com uma equipe de acolhimento e de atendimento para as vítimas da violência.”

Apoio. Além do Dandara, que não recebe apoio financeiro da prefeitura, a cidade conta com a ONG SOS Mulher para atender mulheres em situação de violência.

Conveniada com a prefeitura, a entidade atende 80 casos novos por mês, com um total de 694 mulheres atendidas de janeiro a junho deste ano. Dez delas foram retiradas de casa por causa do risco de morte.

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