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14/12/12 09:32 - Franca

Escritora Vanessa Maranha lança hoje seu terceiro livro de ficção

Sônia Machiavelli

Vanessa Maranha afirma se inspirar em paisagens humanas para criar seus contos

Vanessa Maranha lança hoje à noite, na Livraria Pé da Letra, seu terceiro livro de ficção. Depois de Coisas da Vida (1995), Cadernos Vermelhos (2003) (e uma participação importante no livro 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, organizado por Luiz Ruffato e publicado pela editora Record), chega ao público Oitocentos e Sete Dias, conjunto de contos.

Psicóloga por formação, Vanessa exerceu funções de jornalista neste Comércio da Franca e de professora de línguas em escolas da cidade, antes de assumir a clínica em consultório. Inquieta, ágil, com amplo domínio sobre o léxico, extremamente criativa, ficcionista cuja vasta produção vem chegando aos poucos ao formato livro, Vanessa Maranha conquistou expressivos prêmios nos últimos tempos.

Sua presença na Flip, graças ao talento que lhe garantiu uma participação disputada por muitos, foi importante para que ganhasse visibilidade no País. Por conta disso, o também escritor Menalthon Braff escreve na apresentação de Oitocentos e Sete Dias: “Vanessa Maranha é uma autora que chegou de repente para assumir um lugar de destaque entre os escritores brasileiros”. A seguir, um pouco mais da escritora.

Comércio da Franca - Por que o título?
Vanessa Maranha - É o título de um conto da lavra mais recente. Mas, escolhi esse título por dar ideia de tempo, que pode ser longo ou curto, dependendo da perspectiva. Em oitocentos e sete dias você pode gestar um livro; viver uma paixão; estreitar um afeto ou abandoná-lo; voltar atrás, largar tudo; ir em frente. Queria um título que evocasse tempo e movimento.

Comércio - Por que agora?
Vanessa - Porque fui adquirindo, paradoxalmente, muita resistência à publicação, uma autocrítica feroz e isso não é autoelogio. É dificuldade mesmo. Fui acumulando textos e pensei que se não começasse a organizá-los, eles de alguma forma se perderiam ou não me permitiriam seguir adiante. Tenho contos escritos o suficiente para outros dois livros. Publicar cumpre a função, inclusive, de liberar o autor para outros gêneros.

Comércio - Foi difícil encontrar uma editora?
Vanessa - Costumo dizer que escritores reproduzem o mito grego de Sísifo, em busca de editora. Dificílimo encontrar espaço no meio editorial, que prioriza literatura estrangeira e best sellers. Se você disser que produz contos, então, não é sequer considerado. Um contrassenso, porque os livreiros continuam salientando a procura por contos e crônicas nas lojas. Mas a Multifoco foi receptiva e eu a escolhi porque é uma editora que depois do lançamento disponibilizará o título em boas livrarias virtuais, como a Livraria Cultura e a Livraria da Vila.

Comércio - Como se dá seu processo de criação?
Vanessa - Vem quase sempre como uma pergunta, um incômodo, algo que pelas vias da racionalidade eu não consigo responder. Às vezes nasce de uma frase, de uma música, de uma cor, de uma observação. Gosto muito de observar as pessoas no seu movimento vital, aeroportos, rodoviárias, esses locais de diversidade humana, cheios de histórias implícitas, onde às vezes temos que permanecer por horas, são o paraíso para qualquer ficcionista, que a partir de uma feição, de um gesto, desdobra imaginariamente uma saga...

Comércio - Edita muito?
Vanessa - Hoje sim, impiedosamente, porque escrevo caudalosamente. Mas, a arte de escrever é, sem dúvida, a arte de editar, isso parece consenso entre os autores experientes. O jornalismo, grande experiência em vários sentidos e também para disciplinar a escrita e objetivar o olhar, foi me moldando um pouquinho nesse viés, mas, só um pouquinho, porque em geral sou excessiva. O que eu gostaria de deixar claro é que eu não penso que exista uma literatura ideal, mas várias literaturas possíveis, cada vez mais, cada qual com o seu público interessado.

Comércio - Quais são as principais temáticas que você vê emergindo de seus textos até aqui?
Vanessa - As paisagens humanas, sempre, as suas relações e as suas não-relações intrincadas, situadas entre amor e desamor. Essas são as temáticas de quase tudo o que escrevo. Não se trata, reconheço, de uma literatura calmante.

Comércio - Que lugar ocupa a literatura na vida das pessoas hoje?
Vanessa - Depende do ponto de vista. Para algumas pessoas, tem papel central, fundante, inclusive, mas sabemos ser essa uma questão cultural e a nossa cultura, grosso modo, não se desenha no sentido literário, infelizmente. Mas eu tenho muita esperança. Há um movimento interessante de jovens ligados à literatura fantástica, essas sagas dos vampiros e das fadas gerando público leitor. O importante, no contexto atual, é ter contato e se apaixonar pela leitura.

Comércio - Que conselho daria aos jovens que estão se descobrindo escritores?
Vanessa - O jovem autor precisa buscar o seu estilo, a sua voz, não se amordaçar às patrulhas, que são inevitáveis, humanas. Aceitar as críticas sem permitir que sejam paralisantes, avaliando-as com cuidado, por outro lado, não se deixando inflar demais pelos elogios porque podem ser igualmente estagnantes. A aldeia é importante, mas que busquem também fora, além. Somos escritores francanos e também do mundo. Os prêmios literários são importantes como currículo, para abrir as portas das editoras e como forma de nos autorizarmos, por referendos externos, às ousadias e à continuidade.

Comércio - Fale um pouco da importância da Flip para o Brasil e dos caminhos que você percorreu até ser convidada para participar de um dos eventos da Feira.
Vanessa - A Flip ajuda a colocar o Brasil no mapa da literatura mundial, mostra a grandes autores e sobretudo a editores que não temos só bananas, nem somente favelas, que não somos apenas a estereotipia tropical. Dá visibilidade nacional e internacional aos autores.
Cheguei à Flip com uma participação periférica, obviamente, por meio de seleções para as suas oficinas literárias, primeiro, em 2010, em jornalismo literário, e depois, em 2011, na crítica literária. Em 2012, por meio do Prêmio Off Flip. Não houve nenhum compadrio ou favorecimento, eu não conhecia ninguém lá para abrir as portas para mim. Enviei os textos solicitados e fui selecionada.

Comércio - Liste cinco ficcionistas preferidos e diga por qual razão os elege.
Vanessa - Essa lista é mutável e vai exceder os cinco nomes... Mas vou citar aqueles aos quais sempre retorno, em releituras. Clarice Lispector, pelo conjunto vida/obra; Nélida Piñon, pela cor profunda na sua prosa, sobretudo contos. Lygia Fagundes Telles, também pela contística bem arrematada, temática sinuosa. Guimarães Rosa por levar a linguagem às últimas consequências. Marguerite Duras, por sua sintaxe encantadora, há algo de pungente e dramático em seu texto. Machado de Assis, porque foi um mago, um desvelador da alma humana. Alberto Moravia porque sabia pegar o leitor pela mão e conduzi-lo à viagem literária. Italo Calvino pela forma filosófica de ficcionalizar a realidade. Julian Barnes, Juan Rulfo, António Lobo Antunes, Inés Pedrosa, Ian McEwan, Mia Couto, Noemi Jaffe. A lista é extensa.

Comércio - Qual a expectativa neste dia de lançamento?
Vanessa - Os convites foram enviados para amigos, colegas, conhecidos, leitores. Espero que seja uma noite bonita. A jornalista Joelma Ospedal, o escritor Luiz Cruz e o psicanalista Antonio Cezar Peron toparam falar sobre literatura durante o lançamento.

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